Críticas
Qual é o preço do Resgate?
Por Cássia Maria F. Monteiro1
Janeiro 2010
“Toda obra é uma viagem, um trajecto, mas que apenas percorre este ou aquele caminho
exterior em virtude dos caminhos e trajetos interiores que a compõem, que constituem sua
passagem e o seu conserto.”2 Deleuze 2000
Natural do Rio de Janeiro e uma ousada flâneuse pelas ruas cariocas, comecei a trabalhar em Ouro Preto em agosto de 2009. Quando me encontrei na pacata e encantadora cidade em Minas Gerais, se instaurou em mim também a esperança de não ser mais assaltada. Entretanto, não havia imaginado que a abordagem dessa vez viria de outro lugar. Conscientemente chegaria de outro jeito, por meio de outro veículo, e o que antes se instaurava através de uma verdade vivenciada no cotidiano, agora advinha da linha tênue que a arte trabalha. Esta verdade se fazia revelada por meio da atividade teatral. Quatro meses depois de minha chegada em Ouro Preto fui literalmente e figurativamente sequestrada pelo trabalho realizado pelo Grupo Ossanha, O Olho da Rua.
De certa maneira, a proposição do seqüestro armado me deixou com a mesma sensação de nudez e asfixia dos assaltos comuns em minha cidade natal, aqueles que me davam vontade de gritar: “Merda!, por quê?”, mas que só nos resta durante o ato a não reação para a garantia de sobrevivência. É interessante perceber que se na vida tentamos não resistir para continuar vivendo; ali, na encenação, muitas vezes tentamos não reagir para continuar fazendo parte do espetáculo. E quão dolorosa se dá esta não reação... As perguntas rondam em ambos os casos de violência: estou com medo ou estou fingindo que estou com medo? Estou contribuindo ou estou atrapalhando?
A tensão da passividade se dá na justa indefinição do lugar do expectador. Muitas vezes
estamos sendo passivos se atuamos tal qual eles propõem e realmente ativos se resistimos às ordens que nos são confiadas. De certo modo, são algumas questões já traçadas por tantos teóricos da sociedade moderna, uma sociedade do espetáculo para citar Debord, e que neste espetáculo são potencializadas tanto em instâncias formais quanto conceituais.
Se a imagem visual é um nos pilares para a capacidade sensitiva no mundo contemporâneo, um mundo de registros digitalizados onde imagens são alteradas por programas de computador e superdimensionadas por telas em LCD, o trabalho desta gangue de “atuadores” parece estar na estreita contramão. Por ora, pode até se formar uma espécie de trocadilho com o título da encenação (O Olho da Rua) e durante a experiência, este mesmo “olho” provoca a fronteira entre o visto e não visto; este “olho” sente e faz sentir de maneira tátil,carnal, orgânica.
A clara referência aos espetáculos do grupo Vertigem lida, sobretudo, com a apropriação
ambiental de forma que a experiência do lugar condiciona uma vivência particular no
expectador, cheia de desníveis e cheiros vertiginosos. A dramaturgia desenvolvida e ordenada pelo diretor tem como base contos urbanos e, com uma densa atuação, assumem umaveracidade que provoca e angustia. A perda de orientação geográfica corrobora para uma sufocação que só tende a piorar na medida em que os contos escolhidos são narrados. Dois tipos de participantes são, então, convidados: os que são sequestrados e privados do direito de ver e os que assistem como cúmplices da cena que se passa. Em ambos os casos os participantes atuam de forma intensa e constitutiva de toda a ação.
Chamam-nos atenção, portanto, os aproveitamentos espaciais que o grupo escolhe para palco de suas ações. A angústia do não ver e não conhecer onde estamos, o transito entre o pontode encontro e o local do espetáculo são todos trajetos que o espectador é condicionado a passar. Os guias do trânsito neste local desconhecido são, muitas vezes, os poucos pontos de luz muito bem desenhados pelos corredores do sítio (uma fábrica desativada) que conseguíamos, por ora, ver através da venda negra sobre os olhos. Para além da luz, acredito realmente que a força estética está tatuada no modo de orientar e perceber com estes “outros olhos” uma cena teatral. Cena esta guiada também por vozes nervosas, apertões, sons, sussurros, canos de armamentos, cheiros desagradáveis. Vale também destacar a qualidade poética que é atingida através da direção musical assinada por Daniel Vargas, que ora nos angustia ainda mais e ora nos alivia de uma dor física e moral. Todos estes recursos são medidos com maestria pelo “regente” deste espetáculo teatral. Sem dúvidas o trabalho de direção exercido por Marcelo Costa assume uma maturidade estética que sabe dosar nossa sensibilidade em prol de um ideal artístico e social.
Aos expectadores que conseguiam literalmente ver ficavam as imagens do horror que estavam impregnados nos atores e nas reações dos outros participantes. Inscrição sobressaída por uma arrebatadora caracterização. Comungando, então, àquele espaço em ruínas, o figurino de macacões negros e industriais agia uniformizando a gangue e indeferindo os sexos entre os atores, já a maquiagem, ainda que exageradamente expressiva, amedronta aqueles que assistem essa encenação-sequestro.
Nesta vertiginosa montagem, prevalece então, a constante reação e comentários à condição
humana. Indo de encontro com a proposta pela estética da dor que vem sendo desenvolvida
pelo Grupo Ossanha a (encen)ação tem atingido, através do trabalho artístico do corpo de
atores, uma cumplicidade entre ator e espectador estabelecendo também uma cumplicidade entre assaltante e assaltado, seqüestrador e seqüestrado. O seqüestro aqui relatado começa pela nossa visão e termina na nossa voz, no fôlego e, sobretudo, dos valores humanos que os problemas sociais dos grandes centros urbanos nos roubam cotidianamente. Ao término deste espetáculo nós resta a dúvida do preço do resgate deste mundo que vivemos e a ânsia de passar de espectadores a cúmplices, e de cúmplices à testemunhas que “vão para o olho da rua” e versam todo o acontecido e transformado neste cárcere voluntário.
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1 Mestranda em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO),
professora do curso de Artes Cênicas da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
2 DELEUZE, G. Crítica e Clínica, Lisboa, Edições Século XXI. 2000 p. 10
Comecei a acompanhar as atividades do Grupo Ossanha quando dava aulas de Interpretação e
Direção na Universidade Federal de Ouro Preto. O que me impressiona no grupo é sua
capacidade de definir a pesquisa que organiza com os atores em função de uma efetividade da
expressão teatral. Cada projeto exige nova formulação de exercícios e práticas que sempre
responderam adequadamente - basta conhecer o vigor da linguagem de seus espetáculos.
Trata-se de um dos nossos raríssimos grupos de pesquisa que empolgam os espectadores pela
criatividade, beleza e competância do resultado. Sou admirador entusiasta de seu trabalho.
Paulo César Bicalho - Professor, diretor, autor de teatro e cinema.
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MEDÉIA DE BANDIDO
Medéia é de longe o melhor espetáculo que vi em Ouro Preto. A dupla que se formou entre o
Marcelo e o William é muito boa. As interpretações são vigorosas. Cheguei a sonhar com a
peça. Vi a atriz olhar para os panos, satisfeita de livrar-se da gravidez. Vi o ator enxergando nos
panos irrealização. De repente os panos se viram e atrás de todos eles as marcas vermelhas de
um bebê recém-nascido. Influência de um artigo que li sobre o sudário. Raríssimas vezes isso
acontece, de eu sonhar. Só quando o espetáculo mexe comigo. O grupo é muito talentoso.
Paulo César Bicalho - Professor, diretor autor de teatro e cinema.
“Aconteceu algo aqui?”
Um acontecimento impossível de nomear, tecendo uma infinidade de outros acontecimentos,
de fluxos intensivos, excessivos, informes, limítrofes. Conexões sobrepostas, fibras justapostas,
estiradas nos corpos virados ao avesso. Processa-se coletivamente um ato criador. Um
pensamento da carne aparece e denuncia o inominável. Horror e maravilhamento.
Para se deixar ver, foi preciso perder o corpo inteiro.
“Alguém viu alguma coisa?”
Artaud: Estas forças informuladas que me assediam, será necessário um dia que minha razão
as acolha – que elas se instalem no lugar do alto pensamento – estas forças que de fora tem a
forma de um grito. Há gritos intelectuais, gritos que provêem da finesse das medulas. É isto
que eu chamo a Carne. Eu não separo meu pensamento de minha vida. Eu refaço, a cada
vibração de minha língua, todos os caminhos de meu pensamento na minha carne. [1925]
Superfícies e profundidades expostas. Teatro, teatro, vida, vida, crueldade no puro vivido.
Amor no espetáculo que devora.
Corpo = pele = tecido = texto = espaço de inscrição da carne no obscuro que escapa à língua.
“Não, ninguém viu nada”.
Clarissa Alcantara, Pesquisadora e professora na Universidade Federal de Ouro Preto-MG e
Instituto de Filosofia Arte e Cultura